Este blogue pretende ser uma montra de poemas e poetas de língua portuguesa.
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quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Búzio - MIGUEL TORGA

Versos, imagens e melancolia.
Disto faço o casulo do meu sonho.
Segrego tudo com a luz do dia,
E ali dentro me ponho.

Babo depois a concha de luar,
E zuno, zuno, como um sino ao vento.
E na baba que babo fica o mar,
E, no som que ali deixo, o meu lamento.

EM - POESIA COMPLETA VOL. I - MIGUEL TORGA - DOM QUIXOTE

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Obscura castidade - NATÁLIA CORREIA

Uma obscura e inquieta castidade
pôs uma flor para mim no jardim mais secreto
num horizonte de graça e claridade
intangível e perto.
Promessa estática no luar
da densidade em mim corpórea
não é a culpa, é a memória
da primeira manhã do pecado
sem Eva e se Adão.
Só o fruto provado
E a serpente enroscada
na minha solidão.

EM - POESIA COMPLETA - NATÁLIA CORREIA - DOM QUIXOTE

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Adolescente - JORGE SOUSA BRAGA

Viera acompanhada pela mãe
teria quinze ou dezasseis anos

Já não me lembro do motivo
Da consulta   apenas da

Perturbação que me causaram
Os seus olhos cor de violeta

EM - A FERIDA ABERTA - JORGE SOUSA BRAGA - ASSÍRIO & ALVIM

domingo, 27 de novembro de 2011

Aquele que quer morrer - MANUEL ANTÓNIO PINA

São chegados os tempos escandalosos
da Morte e da Inocência.
Aquele que quer saber e
apodrece de fora para dentro

dança já sobre os destroços do Futuro
com voláteis pés conceituais.
O sentido de tudo faz parte de tudo,
o Mistério não pode ser ocultado nem revelado.

Tudo o que passou
está a ser passado infinitamente
e o Futuro é a eternidade de isto
e tudo é sabido em si próprio.

EM - POESIA REUNIDA - MANUEL ANTÓNIO PINA - ASSÍRIO & ALVIM

sábado, 26 de novembro de 2011

18 - ARMANDO SILVA CARVALHO

As falas não sossegam, nem mesmo
as do poema,
estão todas amarradas pela sua voz gritante
que não desaparece e foge,
de sala em sala, mas tão transfigurada,
a reclamar uma justiça feita à sua medida,
pela sobrevivência.

EM - DE AMORE - ARMANDO SILVA CARVALHO - ASSÍRIO & ALVIM

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Ao rosto vulgar dos dias - ALEXANDRE O'NEILL

Monstros e homens lado a lado,
Não à margem, mas na própria vida.

Absurdos monstros que circulam
Quase honestamente.

Homens atormentados, divididos, fracos.
Homens fortes, unidos, temperados.

                   *

Ao rosto vulgar dos dias,
À vida cada vez mais corrente,
As imagens regressam já experimentadas,
Quotidianas, razoáveis, surpreendentes.

                   *

Imaginar, primeiro, é ver.
Imaginar é conhecer, portanto agir.

EM - POESIAS COMPLETAS - ALEXANDRE O'NEILL - ASSÍRIO & ALVIM

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

IV - MÁRIO CESARINY

Um corte nos dedos   e agora
que estamos no inverno
vale a pena esperar mais depressa
a maravilha minúscula
o império
que foi comprado para bêbedos
a dez centavos o hectar

EM - PENA CAPITAL - MÁRIO CESARINY - ASSÍRIO & ALVIM

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

O que é o espaço? - ANA HATHERLY

O que é o espaço
senão o intervalo
por onde
o pensamento desliza
imaginado imagens?

O biombo ritual da invenção
oculta o espaço intermédio
o interstício
onde a percepção se refracta

Pelas imagens
entramos em diálogo
com o indizível

EM - O PAVÃO NEGRO - ANA HATHERLY - ASSÍRIO & ALVIM

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Fizeste... - LUÍS FALCÃO

Fizeste da tua vida
Uma catedral abandonada
Horas esquecidas
Em adoração nocturna
Pedindo silêncio
A tudo o que perdeste.

EM - PÉTALAS NEGRAS ARDEM NOS TEUS OLHOS - LUÍS FALCÃO - ASSÍRIO & ALVIM

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Lacrimatória 14 - JAIME ROCHA

A ilha torna-se ainda mais clara aos olhos do
homem. Aquilo que parecia um círculo de pedra
em torno dos ciprestes é agora uma plataforma
de relva estendida na água como se se tivesse
transformado subitamente num pequeno navio
petrificado, como se o castigo de um deus tivesse
caído sobre ela e a devolvesse a um espaço parado.
Apenas os corvos e as garças mostram, com os
bicos, restos de bois que velhos marinheiros ali
tinham devorado, escondidos do sol e da tempestade.
Ao contornar os rochedos, ele descobre os vestígios
de uma muralha, uma linha de terra dura, de ferrugem
e de toros com enormes pregos espetados e cruzadas
entre si.

EM - LACRIMATÓRIA - JAIME ROCHA - RELÓGIO D'ÁGUA

domingo, 20 de novembro de 2011

Vela - MIGUEL TORGA

Rondo.
Mas nem sei o que guardo, nem conheço
Quem me manda ficar se sentinela...
Sei apenas que é um crime se adormeço
E deixo de espreitar pela janela.

Rondo.
Como soldado lírico que sou.
Se é manhã,
Se é poema,
Se é luar, o que vem,
- Sabe-o quem me acordou,
Se foi alguém...

EM - POESIA COMPLETA VOL. I - MIGUEL TORGA - DOM QUIXOTE

sábado, 19 de novembro de 2011

Mãe ausente - NATÁLIA CORREIA

A que partiu ficou vibrando
no som da corda que se quebrou.
Arco de violino retesado
e depois partido pelo vento
era a natureza a separar-se
do que nela criado
a renegou em dança e em vertigem
para que o olhar em pranto deslumbrado
intacta a repusesse na origem.

EM - POESIA COMPLETA - NATÁLIA CORREIA - DOM QUIXOTE

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

O anencéfalo - JORGE SOUSA BREGA

Condenado a morrer dentro de
Escassos dias   o pediatra esculpira-lhe

Com gazes   o resto do crânio
Que lhe faltava. Havia flores

Em todas as mesas. na de sua
Mãe   nem um gerânio

EM - A FERIDA ABERTA - JORGE SOUSA BRAGA - ASSÍRIO & ALVIM

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Transforma-se a coisa estrita no escritor - MANUEL ANTÓNIO PINA

Isto está cheio de gente
falando ao mesmo tempo
e alguma coisa está fora de isto falando de isto
e tudo é sabido em qualquer lugar.

(Chamo-lhe Literatura porque não sei o nome de isto;)
o escritor é uma sombra de uma sombra
o que fala põe-o fora de si
e de tudo o que não existe.

Aquele que quer saber
tem o coração pronto para o
roubo e para a violência
e a alma pronta para o esquecimento.

EM - POESIA REUNIDA - MANUEL ANTÓNIO PINA - ASSÍRIO & ALVIM

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

16 - ARMANDO SILVA CARVALHO

Às vezes na cozinha,
entre a loiça suja e o metal já frio
dos talheres diários,
um sopro de súbito leva-te a pensar
que ela está a chegar, tão quente e tão diligentemente
dona do trabalho, do valor do uso,
senhora do lugar.

EM - DE AMORE - ARMANDO SILVA CARVALHO - ASSÍRIO & ALVIM

terça-feira, 15 de novembro de 2011

O tempo faz caretas - ALEXANDRE O'NEILL

Visto que não há regresso
E o tempo está de mau cariz,
Viremos o dia do avesso
Para ver como é, primeiro.

A carranca dum velho ou o traseiro
Prazenteiro dum petiz?

EM - POESIAS COMPLETAS - ALEXANDRE O'NEILL - ASSÍRIO & ALVIM

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

III - MÁRIO CESARINY

Poucos conhecem uma carta
uma carta e um bilhete ilustrado com a tradução
duma estrofe
S. Marcos   o sol a Santa Catarina
como se fosse no inverno à lareira
«no escuro dessas noites mal iluminadas enevoadas
desertas em que as casas com luz interior ou sem ela
têm muito relevo são pesadas e misteriosas»
Poucos poucos conhecem
os últimos dias do enigma
de uma porta chapeada de alto a baixo
à beira de um caminho ladeado de sebes de espinheiro

EM - PENA CAPITAL - MÁRIO CESARINY - ASSÍRIO & ALVIM

domingo, 13 de novembro de 2011

As impensáveis portas da ilusão - ANA HATHERLY

O que é que leva o meu barco
para esta praia
onde um poder esquivo
se contenta
com a ambígua oferta de palavras?

Estamos aqui
no exíguo barco do desejo
exibidos
na frágil singularidade do verbo

Insatisfeitos sempre
aguardamos
que se abram
as impensáveis portas da ilusão

EM - O PAVÃO NEGRO - ANA HATHERLY - ASSÍRIO & ALVIM

sábado, 12 de novembro de 2011

Atravessa o pátio... - LUÍS FALCÃO

Atravessa o pátio de Limoeiros
Enquanto um sino chama para a oração da tarde
Purifica olhos e mãos
Recita um salmo que te prepare para a chegada da noite
Ainda que saibas
Que a tua vida nunca será tocada por essa brisa que passa.

EM - PÉTALAS NEGRAS ARDEM NOS TEUS OLHOS - LUÍS FALCÃO - ASSÍRIO & ALVIM

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Lacrimatória 9 - JAIME ROCHA

Puxa-a pelos braços enquanto um cão vigia o
caminho. A folhagem desprende-se com o
movimento e a nudez espalha-se pela erva
anunciando um momento de loucura. Um outro
cão surge do mato com uma perdiz na boca e os
dois ficam  a olhá-la enquanto uivam. O homem
cobre-a de seda encarnada, deixando que o peito
toque no chão e desse lugar se soltem dois corvos
bravos. Há um cisne que procura chegar-se à água
e garças que aguardam as migalhas deixadas pelos
peixes. Tudo se concretiza dentro de uma zona escura,
de uma rede, perto de um precipício, mas o homem
não consegue sequer levantar o rosto com os dedos.

EM - LACRIMATÓRIA - JAIME ROCHA - RELÓGIO D'ÁGUA