Lembra-te
que todos os momentos
que nos coroaram
todas as estradas
radiosas que abrimos
irão achando sem fim
seu ansioso lugar
seu botão de florir
o horizonte
e que desta procura
extenuante e precisa
não teremos sinal
senão o de saber
que irá por onde fomos
um para o outro
vividos
EM - PENA CAPITAL - MÁRIO CESARINY - ASSÍRIO & ALVIM
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
domingo, 30 de outubro de 2011
O último dos homens - MANUEL ANTÓNIO PINA
Não há nada e não o sei
e a ciência de tudo é impossível e a
ciência da ciência da impossibilidade de tudo
Já fiz tudo, já aqui estive, já li tudo!
Aquele que quer morrer
dança sobre os destroços de tudo.
Ó insolência da escrita! Lá vens tu, ó fa-
diga, ó lágrimas!
Difícil solidão (de cócoras) a do escriba,
atravessa o deserto às costas do melhor amigo.
Tem que se lembrar de tudo
pequenas frases, umas primeiro outras depois
EM - POESIA REUNIDA - MANUEL ANTÓNIO PINA - ASSÍRIO & ALVIM
e a ciência de tudo é impossível e a
ciência da ciência da impossibilidade de tudo
Já fiz tudo, já aqui estive, já li tudo!
Aquele que quer morrer
dança sobre os destroços de tudo.
Ó insolência da escrita! Lá vens tu, ó fa-
diga, ó lágrimas!
Difícil solidão (de cócoras) a do escriba,
atravessa o deserto às costas do melhor amigo.
Tem que se lembrar de tudo
pequenas frases, umas primeiro outras depois
EM - POESIA REUNIDA - MANUEL ANTÓNIO PINA - ASSÍRIO & ALVIM
sábado, 29 de outubro de 2011
10 - ARMANDO SILVA CARVALHO
Deixa crescer estes rolos de filmes
corridos pelos olhos cavados na infância
e depois pela cinza
que a vida foi deixando nos teus passos miúdos,
atravessando hotéis como monitora
de serviçais solícitas,
ou ludibriando amores em todos os semáforos
dos teus itinerários.
EM - DE AMORE - ARMANDO SILVA CARVALHO - ASSÍRIO & ALVIM
corridos pelos olhos cavados na infância
e depois pela cinza
que a vida foi deixando nos teus passos miúdos,
atravessando hotéis como monitora
de serviçais solícitas,
ou ludibriando amores em todos os semáforos
dos teus itinerários.
EM - DE AMORE - ARMANDO SILVA CARVALHO - ASSÍRIO & ALVIM
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
Laparotomia - JORGE SOUSA BRAGA
O seu útero era como uma
Melancia que alguém tivesse
Deixado cair ao chão. Por ente
Os ruídos do alarme do monitor
Ouvia-se a voz do anestesista
Falando de catéteres centrais
Um feto de mais ou menos treze semanas
Boiava no meio das ansas intestinais
EM - A FERIDA ABERTA - JORGE SOUSA BRAGA - ASSÍRIO & ALVIM
Melancia que alguém tivesse
Deixado cair ao chão. Por ente
Os ruídos do alarme do monitor
Ouvia-se a voz do anestesista
Falando de catéteres centrais
Um feto de mais ou menos treze semanas
Boiava no meio das ansas intestinais
EM - A FERIDA ABERTA - JORGE SOUSA BRAGA - ASSÍRIO & ALVIM
quinta-feira, 27 de outubro de 2011
Arte poética - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA
Tinha passado toda a noite
ele mesmo se sentia perdido
diante dessa presença sem palavras
que lança trevas nos símbolos
e torna os argumentos
insustentáveis
é possível que resida nisto
sua parte mais importante
a partir deste ponto desaparece
EM - BALDIOS - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA - ASSÍRIO & ALVIM
ele mesmo se sentia perdido
diante dessa presença sem palavras
que lança trevas nos símbolos
e torna os argumentos
insustentáveis
é possível que resida nisto
sua parte mais importante
a partir deste ponto desaparece
EM - BALDIOS - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA - ASSÍRIO & ALVIM
quarta-feira, 26 de outubro de 2011
É tudo de repente - ALBERTO DE LACERDA
É tudo de repente
Muito lento
Insuportavelmente estranho
Os arcos sucessivos dilatando
Extremo após extremo
Deixam o ser inteiro
Perder o pé
No oceano ignoto
EM - O PAJEM FORMIDÁVEL DOS INDÍCIOS - ALBERTO DE LACERDA - ASSÍRIO & ALVIM
Muito lento
Insuportavelmente estranho
Os arcos sucessivos dilatando
Extremo após extremo
Deixam o ser inteiro
Perder o pé
No oceano ignoto
EM - O PAJEM FORMIDÁVEL DOS INDÍCIOS - ALBERTO DE LACERDA - ASSÍRIO & ALVIM
terça-feira, 25 de outubro de 2011
A palavra-escrita - ANA HATHERLY
A palavra-escrita
é um labor arcaico:
sulca enigmas
venda e desvenda
o sentido do gesto
É uma imagem detida
recolhida do mais fundo cinema íntimo
onde o verdadeiro
é um ser invisível
O cinema do mundo está aí
onde houver ilusão
onde houver vontade de ver
mesmo que seja só o nada
EM - O PAVÃO NEGRO - ANA HATHERLY - ASSÍRIO & ALVIM
é um labor arcaico:
sulca enigmas
venda e desvenda
o sentido do gesto
É uma imagem detida
recolhida do mais fundo cinema íntimo
onde o verdadeiro
é um ser invisível
O cinema do mundo está aí
onde houver ilusão
onde houver vontade de ver
mesmo que seja só o nada
EM - O PAVÃO NEGRO - ANA HATHERLY - ASSÍRIO & ALVIM
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
Num lugar...* - LUÍS FALCÃO
Num lugar profundo e desprotegido
Algo de sagrado principia a desfazer-se
És agora como dedos que se fecham
Recusando estender-se
Sobre a pureza intacta de um rosto.
EM - PÉTALAS NEGRAS ARDEM NOS TEUS OLHOS - LUÍS FALCÃO - ASSÍRIO & ALVIM
Algo de sagrado principia a desfazer-se
És agora como dedos que se fecham
Recusando estender-se
Sobre a pureza intacta de um rosto.
EM - PÉTALAS NEGRAS ARDEM NOS TEUS OLHOS - LUÍS FALCÃO - ASSÍRIO & ALVIM
domingo, 23 de outubro de 2011
36 - JAIME ROCHA
Antes que o homem seja exposto
num átrio de terra barrenta, o anjo
beija-o como se a sua língua atravessasse
o espelho num vaivém mortífero. Quando
esse homem constrói o mundo, as suas mãos
ferem-se-lhe num tanque de cal. A sua alma
pertence a um subterrâneo.
EM - DO EXTERMÍNIO - JAIME ROCHA - RELÓGIO D'ÁGUA
num átrio de terra barrenta, o anjo
beija-o como se a sua língua atravessasse
o espelho num vaivém mortífero. Quando
esse homem constrói o mundo, as suas mãos
ferem-se-lhe num tanque de cal. A sua alma
pertence a um subterrâneo.
EM - DO EXTERMÍNIO - JAIME ROCHA - RELÓGIO D'ÁGUA
sábado, 22 de outubro de 2011
Céu estrelado - CRISTINA PINHEIRO MOITA
A blusa
descai devagar...
Solta a corrente de água
Tatuada
Em calafrio, vem almejar.
Desliza o aperto
Pelas costas,
Com vontade
No sentido da saia
Aquece em palavras
De um corpo a desnudar.
Escritas por um olhar
Como um céu carregado
De estrelas
Que a qualquer hora
Te quer amar.
EM - CORPO DE CORCEL - CRISTINA PINHEIRO MOITA - TEMAS ORIGINAIS
descai devagar...
Solta a corrente de água
Tatuada
Em calafrio, vem almejar.
Desliza o aperto
Pelas costas,
Com vontade
No sentido da saia
Aquece em palavras
De um corpo a desnudar.
Escritas por um olhar
Como um céu carregado
De estrelas
Que a qualquer hora
Te quer amar.
EM - CORPO DE CORCEL - CRISTINA PINHEIRO MOITA - TEMAS ORIGINAIS
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
radiograma - MÁRIO CESARINY
Alegre triste meigo feroz bêbedo
lúcido
no meio do mar
Claro obscuro novo velhíssimo obsceno
puro
no meio do mar
Nado-morto às quatro morto a nado às cinco
encontrado perdido
no meio do mar
no meio do mar
EM - PENA CAPITAL - MÁRIO CESARINY - ASSÍRIO & ALVIM
lúcido
no meio do mar
Claro obscuro novo velhíssimo obsceno
puro
no meio do mar
Nado-morto às quatro morto a nado às cinco
encontrado perdido
no meio do mar
no meio do mar
EM - PENA CAPITAL - MÁRIO CESARINY - ASSÍRIO & ALVIM
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
Agora é - MANUEL ANTÓNIO PINA
Agora é diferente
Tenho o teu nome o teu cheiro
A minha roupa de repente
ficou com o teu cheiro
Agora estamos misturados
No meio de nós já não cabe o amor
Já não arranjamos
lugar para o amor
Já não arranjamos vagar
para o amor agora
isto vai devagar
isto agora demora
EM - POESIA REUNIDA - MANUEL ANTÓNIO PINA - ASSÍRIO & ALVIM
Tenho o teu nome o teu cheiro
A minha roupa de repente
ficou com o teu cheiro
Agora estamos misturados
No meio de nós já não cabe o amor
Já não arranjamos
lugar para o amor
Já não arranjamos vagar
para o amor agora
isto vai devagar
isto agora demora
EM - POESIA REUNIDA - MANUEL ANTÓNIO PINA - ASSÍRIO & ALVIM
quarta-feira, 19 de outubro de 2011
7 - ARMANDO SILVA CARVALHO
Por isso eu desfolho o testamento
da que irá renascer após estas palavras.
Palavras ou rebanhos soltos, carne de morrer
em sacrifício,
inocente prosa que mal se desenvencilha
da roupa pegajosa
onde deixaste dormir os insectos
nascidos na pungência
das horas,
no calor dos casulos da dor,
da paciência.
EM - DE AMORE - ARMANDO SILVA CARVALHO - ASSÍRIO & ALVIM
da que irá renascer após estas palavras.
Palavras ou rebanhos soltos, carne de morrer
em sacrifício,
inocente prosa que mal se desenvencilha
da roupa pegajosa
onde deixaste dormir os insectos
nascidos na pungência
das horas,
no calor dos casulos da dor,
da paciência.
EM - DE AMORE - ARMANDO SILVA CARVALHO - ASSÍRIO & ALVIM
terça-feira, 18 de outubro de 2011
Uma prostituta - JORGE SOUSA BRAGA
Eram duas da tarde e já a
Tinha cheia a vagina confidenciava
Ela a uma amiga enquanto
Subiam a rua ladeada de
Hortênsias. E já o Ford cinzento
Se abeirava do passeio interrompen-
Do aquelas confidências
EM - A FERIDA ABERTA - JORGE SOUSA BRAGA - ASSÍRIO & ALVIM
Tinha cheia a vagina confidenciava
Ela a uma amiga enquanto
Subiam a rua ladeada de
Hortênsias. E já o Ford cinzento
Se abeirava do passeio interrompen-
Do aquelas confidências
EM - A FERIDA ABERTA - JORGE SOUSA BRAGA - ASSÍRIO & ALVIM
segunda-feira, 17 de outubro de 2011
Compaixão - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA
Vi pela primeira vez o mar
era muito difícil frente a mim
compreender esse território absoluto
falámos só de coisas inúteis
e o mundo inteiro se escondia
somos novos. Lemos nos olhos fechados
precauções, derrotas, recusas
quando a intimidade sugere
a maior compaixão
EM - BALDIOS - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA - ASSÍRIO & ALVIM
era muito difícil frente a mim
compreender esse território absoluto
falámos só de coisas inúteis
e o mundo inteiro se escondia
somos novos. Lemos nos olhos fechados
precauções, derrotas, recusas
quando a intimidade sugere
a maior compaixão
EM - BALDIOS - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA - ASSÍRIO & ALVIM
domingo, 16 de outubro de 2011
Cada cidade inventa - ALBERTO DE LACERDA
Cada cidade inventa
Uma floresta virgem
Que a cada instante inventa
Outra floresta virgem
Cada cidade é Shakespeare
Cada cidade encarna
Tudo quanto existe
Existirá e desde
O alvor dos tempos
Foi fabulosamente
Criado
EM - O PAJEM FORMIDÁVEL DOS INDÍCIOS - ALBERTO DE LACERDA - ASSÍRIO & ALVIM
Uma floresta virgem
Que a cada instante inventa
Outra floresta virgem
Cada cidade é Shakespeare
Cada cidade encarna
Tudo quanto existe
Existirá e desde
O alvor dos tempos
Foi fabulosamente
Criado
EM - O PAJEM FORMIDÁVEL DOS INDÍCIOS - ALBERTO DE LACERDA - ASSÍRIO & ALVIM
sábado, 15 de outubro de 2011
As palavras dirigem-se umas às outras - ANA HATHERLY
As palavras dirigem-se umas às outras:
dormentes nos dias cinzentos
acordam nos sonhos
mas acordam-nos dos sonhos
salvadoras-matadoras
roedoras de raízes
O seu alcance é
a vastidão erma do sentido
À flor do rio do olvido
o seu brilho
flutua fugaz no corpo da grafia
EM - O PAVÃO NEGRO - ANA HATHERLY - ASSÍRIO & ALVIM
dormentes nos dias cinzentos
acordam nos sonhos
mas acordam-nos dos sonhos
salvadoras-matadoras
roedoras de raízes
O seu alcance é
a vastidão erma do sentido
À flor do rio do olvido
o seu brilho
flutua fugaz no corpo da grafia
EM - O PAVÃO NEGRO - ANA HATHERLY - ASSÍRIO & ALVIM
sexta-feira, 14 de outubro de 2011
Quando te afastas - LUÍS FALCÃO
Quando te afastas
Uma fina poeira de gelo
Cobre os ramos de todas as árvores
E delicadamente
Atravessas os destroços
Em que deixas tudo o que amaste.
EM - PÉTALAS NEGRAS ARDEM NOS TEUS OLHOS - LUÍS FALCÃO - ASSÍRIO & ALVIM
Uma fina poeira de gelo
Cobre os ramos de todas as árvores
E delicadamente
Atravessas os destroços
Em que deixas tudo o que amaste.
EM - PÉTALAS NEGRAS ARDEM NOS TEUS OLHOS - LUÍS FALCÃO - ASSÍRIO & ALVIM
quinta-feira, 13 de outubro de 2011
31 - JAIME ROCHA
De noite, quando o silêncio desce pela água
e a música atravessa as casas por um cano,
tudo se conforma e se cala como se nada
existisse para além dos gatos e de alguns
pregos exteriores às paredes. O sol morreu
e com ele toda a energia dos carros.
Um homem foge para uma montanha
e inicia um ritual com o corpo. O seu sangue
e a neve cobrem as ruas como uma pintura.
EM - DO EXTERMÍNIO - JAIME ROCHA - RELÓGIO D'ÁGUA
e a música atravessa as casas por um cano,
tudo se conforma e se cala como se nada
existisse para além dos gatos e de alguns
pregos exteriores às paredes. O sol morreu
e com ele toda a energia dos carros.
Um homem foge para uma montanha
e inicia um ritual com o corpo. O seu sangue
e a neve cobrem as ruas como uma pintura.
EM - DO EXTERMÍNIO - JAIME ROCHA - RELÓGIO D'ÁGUA
quarta-feira, 12 de outubro de 2011
Agradecer ao dia - CRISTINA PINHEIRO MOITA
O passo segue ali e a voar
Vai certo, continua a dançar
É valsa no tango a rodopiar
Passo doble unido num olhar
No peito cravado no peito
É sangue quente e ardente
Tornado amado com o vento
Um Cintilar dum luar cadente
Sem parar o passo e querer
Agradecer e ainda curvar
Ao dia de acordar e me querer
Há fonte por a água verter
A beleza do sol, de nascer
Nos silêncios, de amar e sorver
EM - CORPO DE CORCEL - CRISTINA PINHEIRO MOITA - TEMAS ORIGINAIS
Vai certo, continua a dançar
É valsa no tango a rodopiar
Passo doble unido num olhar
No peito cravado no peito
É sangue quente e ardente
Tornado amado com o vento
Um Cintilar dum luar cadente
Sem parar o passo e querer
Agradecer e ainda curvar
Ao dia de acordar e me querer
Há fonte por a água verter
A beleza do sol, de nascer
Nos silêncios, de amar e sorver
EM - CORPO DE CORCEL - CRISTINA PINHEIRO MOITA - TEMAS ORIGINAIS
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