Este blogue pretende ser uma montra de poemas e poetas de língua portuguesa.
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sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Corrimento - JORGE SOUSA BRAGA

Entre restos celulares   e
Bacilos de Döderlein flutuavam
alguns nenúfares

EM - A FERIDA ABERTA - JORGE SOUSA BRAGA - ASSÍRIO & ALVIM

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

12 - JAIME ROCHA

É nesse silêncio das máscaras que
a cidade se levanta e o homem devora
as construções. Está cego porque quer, e mudo.
Dentro dele as sombras fabricam um veneno
de cobra. O pássaro está ferido. Ao atravessar
o túnel levanta uma zona de bolor e é como
se adormecesse dentro de um vaso.

EM - DO EXTERMÍNIO - JAIME ROCHA - RELÓGIO D'ÁGUA

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Com tudo... - GASTÃO CRUZ

Com tudo o que estremece destruído
e se desprende ou ameaça o ar
quando tudo é visível
e as folhas na terra já cavaram

os inúteis abrigos
que do sol penetrados
do ar frio
nas valas desenvolvem os seus vastos

abismos preenchidos    com
as folhas em fundos
abrigos reunidas ou que ainda

nas árvores o rude
inverno esperam fixas
nos medimos

EM - OUTRO NOME/ESCASSEZ/AS AVES - GASTÃO CRUZ - ASSÍRIO & ALVIM

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Ardis - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

A incompreendida figura do amor
a céu descoberto sem que se exprima
rodeamo-nos de vinganças, medidas, ardis
e enchemos os livros da ardente ausência
de nós próprios

ao entardecer corremos
ao pontão sobre o mar
e a vida só se parece
com alguma coisa que sabemos

EM - BALDIOS - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA - ASSÍRIO & ALVIM

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Os vocábulos - ALBERTO DE LACERDA

Os vocábulos
Os olhos
O olhar
Os corpos
Regressam
Surpreendentemente
Modificados

Nunca se sabe

Nunca se apreende
O que nasceu no vértice da paixão

Contemplação ardente
De um leque que se abriu um dia
Para nunca mais se deter

EM - O PAJEM FORMIDÁVEL DOS INDÍCIOS - ALBERTO DE LACERDA - ASSÍRIO & ALVIM

domingo, 25 de setembro de 2011

estação - MÁRIO CESARINY

Esperar ou vir esperar querer ou vir querer-te
vou perdendo a noção desta subtileza.
aqui chegado até eu venho ver se me apareço
e o foto com que virei preocupa-me, pois chove miudinho

Muita vez vim esperar-te e não houve chegada
De outras, esperei-me eu e não apareci
embora bem procurando entre os mais que passavam.
Se algum de nós hoje é já bastante
como comboio e como subtileza
Que dê o nome e espere. Talvez apareça

EM - PENA CAPITAL - MÁRIO CESARINY - ASSÍRIO & ALVIM

sábado, 24 de setembro de 2011

As vozes dos animais - MANUEL ANTÓNIO PINA

A dor dói o boi muge
Eu digo o teu nome em voz
Alta pelo sim pelo não e o
Teu nome identifica a minha
Solidão a minha morada
O meu telefone assim
O teu nome te serve a
Ti e a mim, a ti te persegue,
A mim me precede o teu
Nome que eu pintaria de fresco se não
Fosse estar terrivelmente preocupado.
O teu nome onde
Da guerra me escondo.

EM - POESIA REUNIDA - MANUEL ANTÓNIO PINA - ASSÍRIO & ALVIM

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

5 - ARMANDO SILVA CARVALHO

Mas eu hei-de soltar-te e tornar-te a criança
que se vê no mundo,
só,
com a sua bola de sonhar,
a sua rosa simples,
o seu vestido às bolas, assim, sozinha e solta,
no lugar mais ermo que te cabe
no alto do infinito.

EM - DE AMORE - ARMANDO SILVA CARVALHO - ASSÍRIO & ALVIM

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Um rio de luzes - ANA HATHERLY

Um rio de escondidas luzes
atravessa a invenção da voz:
avança lentamente
mas de repente
irrompe fulminante
saindo-nos da boca

No espantoso momento
do agora da fala
é uma torrente enorme
um mar que se abre
na nossa garganta

Nesse rio
as palavras sobrevoam
as abruptas margens do sentido

EM - O PAVÃO NEGRO - ANA HATHERLY - ASSÍRIO & ALVIM

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Percebo...* - LUÍS FALCÃO

Percebo demasiado tarde
Que a vida é apenas isto
Um lugar de abandono
Com ciprestes na berma da estrada

EM - PÉTALAS NEGRAS ARDEM NOS TEUS OLHOS - LUÍS FALCÃO - ASSÍRIO & ALVIM

terça-feira, 20 de setembro de 2011

A ferida aberta - JORGE SOUSA BRAGA

Há uma ferida aberta que
Sangra ciclicamente   um

Cíclame que floresce às
Horas mais inapropriadas

Quem me dera poder guardar
Todos esses milhões de flores

Que acabam diariamente em
Pensos higiénicos nos contentores

EM - A FERIDA ABERTA - JORGE SOUSA BRAGA - ASSÍRIO & ALVIM

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

5 - JAIME ROCHA

O pássaro esvoaça depois num
redemoinho silencioso vindo de uma
zona intercalar e seca. Quer tomar o vértice
da cidade. Mas enlouquece dentro do fogo,
atravessado por uma última miragem.
O homem foge tiranizado por um pensamento
redondo. procura por fim encontrar uma rua
estreita, um degrau, mas o seu andar transforma-se
num utensílio de cristal.

EM - DO EXTERMÍNIO - JAIME ROCHA - RELÓGIO D'ÁGUA

domingo, 18 de setembro de 2011

Às vezes... - GASTÃO CRUZ

Às vezes despedimo-nos tão cedo
que nem lágrimas há que nos suportem o
peso da voz à solidão exposta
ou
de lisboa no corpo o peso triste

Às vezes é tão cedo que nos vemos
omitidos
enquanto expõe
o peso insuportável do amor
a despedida

É tão cedo por vezes que lisboa
estende sobre os corpos o desgosto

Com os dedos no crânio despedimo-nos

EM - OUTRO NOME/ESCASSEZ/AS AVES - GASTÃO CRUZ - ASSÍRIO & ALVIM

Pois a cidade... - GASTÃO CRUZ

Pois a cidade já nos desconhece
à luz de cinzas a que vê
o meu corpo e tu morreste
a essa luz de fogo morto
não pode à luz do fogo nenhum corpo
ver a cinza da luz dum corpo morto

EM - OUTRO NOME/ESCASSEZ/AS AVES - GASTÃO CRUZ - ASSÍRIO & ALVIM

sábado, 17 de setembro de 2011

Esplanadas - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

Um sofrimento parecia revelar
a vida ainda mais
a estranha dor de que se perca
o que facilmente se perde:
o silêncio as esplanadas da tarde
a confidência dócil de certos arredores
os meses seguidos sem nenhum cálculo

por vezes é tão criminoso
não percebermos
uma palavra, uma jura, uma alegria

EM - BALDIOS - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA - ASSÍRIO & ALVIM

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

V. S. - ALBERTO DE LACERDA

Maga
Adivinhavas
Nas cidades
O centro

Maga
Comunicavas

Decifravas
O labirinto

EM - O PAJEM FORMIDÁVEL DOS INDÍCIOS - ALBERTO DE LACERDA - ASSÍRIO & ALVIM

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Homenagem a Cesário Verde - MÁRIO CESARINY

Aos pés do burro que olhava para o mar
depois do bolo-rei comeram-se sardinhas
com as sardinhas um pouco de goiabada
e depois do pudim, para um último cigarro
um feijão branco em sangue e rolas cozidas

Pouco depois cada qual procurou
com cada um o poente que convinha.
Chegou a noite e foram todos para casa ler Cesário Verde
que ainda há passeios ainda há poetas cá no país!

EM - PENA CAPITAL - MÁRIO CESARINY - ASSÍRIO & ALVIM

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Se falo - MANUEL ANTÓNIO PINA

Se falo falta-me um
silêncio rápido no papel: entre as pernas.
Oh, nesse lugar me comovo! Perverso percurso
do corpo, aqui é a cama, o congresso.

Venais movimentos do corpo na cama; o peso.
Eu falo de mais. Não tenho palavras para isto.
Breve morte que sobre o coração
páras tua mortal perversão, tua morte,

falta-me subitamente com a tua
mão e que eu morra como um corpo
dentro do coração da luz do silêncio
que me cale que não viva nem esteja morto.

EM - POESIA REUNIDA - MANUEL ANTÓNIO PINA - ASSÍRIO & ALVIM

terça-feira, 13 de setembro de 2011

4 - ARMANDO SILVA CARVALHO

Parece mais solene e menos verdadeiro
aos que nunca o viveram
o frémito das veias
com o estranho estrondo desse aparelho
a refulgir em sangue.
E o corpo nele erguendo-se depois no mais negro
silêncio, tenso animal dorido,
aceso em vela.

EM - DE AMORE - ARMANDO SILVA CARVALHO - ASSÍRIO & ALVIM

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

As lágrimas do poeta - ANA HATHERLY

Um poeta barroco disse:
as palavras são
as línguas dos olhos

Mas o que é um poema
senão
um telescópio do desejo
fixado pela língua?

O voo sinuoso das aves
as altas onda do mar
a calmaria do vento:
Tudo
tudo cabe dentro das palavras
e o poeta que vê
chora lágrimas de tinta.

EM - O PAVÃO NEGRO - ANA HATHERLY - ASSÍRIO & ALVIM